A história por trás da Roselândia

Inspirado pela revista ‘O Cruzeiro’, em meados de 1971, o empresário passo-fundense Irady Laimer começou a idealizar o Complexo Turístico Parque da Roselândia. Tudo foi pensado e colocado em prática pelo visionário, desde as atividades dos locais e eventos até a criação dos complementos que compõem o lugar, como o famoso pórtico da Roselândia.

Laimer era empresário, tinha uma loja de artigos de presentes e bijouterias em Passo Fundo. Em certa ocasião, foi até Itapevi, São Paulo, para conhecer pessoalmente a Roselândia, cujo espaço era marcado pela tradição do cultivo de rosas. Encantado com o local, Irady Laimer teve a ideia de fazer o mesmo na área que, mais tarde, seria denominada com o mesmo nome.

Cachoeira, teleférico, água termal, rodeio internacional, autódromo, kartódromo, museu e clubes. Essas, eram apenas algumas das ideias que faziam parte do projeto inicial de seu Irady, que era transformar o local em um utilitário público, fomentando a economia e o turismo na cidade.

O primeiro projeto consolidado foi o Parque Clube da Roselândia. Aos poucos, Laimer foi comprando as terras em torno da área, que ele cresceu e viveu, com o propósito de expandir o território.

Com o apoio de importantes nomes da cidade, integrantes da Academia de Letras de Passo Fundo, como o fundador do jornal Diário da Manhã, Túlio Fontoura, o empresário conseguiu reunir apoio para criar a fundação do Parque Clube Roselândia. Viabilizando assim, a expansão e visibilidade do projeto perante a sociedade. No entanto, nem todos os sonhos do visionário foram realizados.

Rasteira do destino

No dia 16 de março de 1990, durante o anúncio do novo plano econômico do presidente Fernando Collor de Mello, que incluía, entre outras medidas de estabilização, o congelamento de preços e salários por 45 dias, além do aumento das tarifas de serviços públicos (gás, luz e telefone, entre outros), a extinção de 24 empresas estatais e a demissão de 81 mil funcionários públicos, seu Irady foi à falência.

Com uma dívida altíssima por conta dos financiamentos que havia feito, Irady sentiu a necessidade de se desfazer de algumas propriedades. O empresário levou cerca de dois anos e meio para conseguir vender algumas áreas e, então, amenizar a situação. Uma delas foi vendida para o Clube Recreativo Juvenil. Cedendo terras, vendendo a preços baixíssimos, o seu único objetivo era dar continuidade ao seu sonho.

Mesmo assim, o plano de dar vida à Roselândia não morreu. Ele passou a buscar apoio junto a empresários e ao poder público de Passo Fundo. O propósito, além de dar visibilidade estadual e nacional para a cidade, estimularia a economia local através do turismo, impulsionando, inclusive, a rede hoteleira de Passo Fundo.

“Eu passei a minha vida inteira pensando em fazer algo que era para a população de Passo Fundo. Os prefeitos, os vereadores de Passo Fundo, ninguém fez nada. Eu tô vivo por teimoso, porque vou te dizer uma coisa, tem noite que eu não durmo pensando nessas coisas, no que podia ter sido”, lamenta.

Parque do Gaúcho

Esse seria o projeto de maior destaque na localidade. Seu desejo era transformar a área em um espaço exclusivo, no estado do Rio Grande do Sul, dedicado à cultura gaúcha. Composto por um Museu do Teixeirinha, Galeria da História da Música Gaúcha, Galpão dos CTGs, Fogo de Chão, Rodeio Tradicionalista, o último foi o único a ser, de fato, concretizado.

“Me chamavam de interesseiro quando a minha ideia era fazer um grande parque temático do gaúcho, fazer o galpão da estância, fogo de chão, tudo que fosse de uso e costume do gaúcho na nossa cidade”, conta.

Rodeio Internacional

Um dos eventos de maior relevância realizado no local é o Rodeio Internacional. A primeira edição do evento aconteceu em 1985 graças ao apoio do prefeito municipal da época, Fernando Machado Carrion (1983–1988). Segundo seu Irady, o espaço em que o Rodeio é realizado, e que abriga dezenas de ranchos, foi vendido “quase de presente” na época para os dirigentes do CTG Lalau Miranda.

Teleférico

O Teleférico, também idealizado pelo seu Irady, apesar de ter sido bem sucedido, funcionou cerca de 40 dias, já que faltou investimentos em torno do Parque Clube Roselândia, onde o teleférico se encontra, o que consequentemente, se encaminhou para o fim das suas atividades.

Águas Termais

“Eu trouxe pessoas para fazerem um estudo sobre as águas termais, os geólogos me mostraram que o espaço ideal era atrás do rodeio, apontando 42 graus, sendo que a temperatura de Piratuba é cerca de 39 graus. Fiz o projeto e tudo, mas ninguém deu andamento”, diz.

Crítica ao poder público

Com o decorrer do tempo, Laimer conseguiu o apoio de muitos empresários, mas algumas questões burocráticas e regulamentares, segundo afirma, não tiveram andamento por falta de apoio e interesse do poder público municipal.

“O Osvaldo Gomes, quando foi prefeito (1993–1996 e 2001–2004), colocou em um informativo que iria decretar como área pública e ia fazer o autódromo e a cancha reta na Roselândia. Ele fez? Não fez nada”, declara.

Além de Gomes, outros representantes foram procurados pelo empresário em busca de apoio. “Dei a ideia para o Dipp (prefeito em 2005–2008 e 2009–2012) de fazer a Expositur em Passo Fundo e acabou saindo em Não-Me-Toque. Cedi cerca de 7 hectares, mais 6 do meu irmão, mas não saiu”, alega.

“O Beto Albuquerque, na época deputado federal, conseguiu uma verba de R$ 1.200.000,00 para fazer o poço de águas termais na Roselândia, mas depois disse que devolveu o valor”, afirma Laimer.

Em contrapartida, em 2009, durante o mandato do então prefeito Airton Lângaro Dipp foi feito um investimento de revitalização no Parque da Roselândia, especificamente na arquibancada da pista de tiro de laço.

Na ocasião, o valor foi oriundo de uma verba de R$ 146 mil do Ministério do Turismo, conquistada por intermédio de emenda parlamentar do deputado federal Beto Albuquerque. A Prefeitura também participou com uma contrapartida de R$ 30 mil.

O ex-prefeito Dipp confirmou à reportagem o investimento na área durante o seu mandato. Porém, o ex-prefeito Osvaldo Gomes, assim como o candidato a governador, Beto Albuquerque, não retornaram as perguntas do Memórias em Pauta até o fechamento desta reportagem.

Laimer alega, ainda, ter sido vítima de golpes de pessoas que atuavam na gestão do próprio Parque Clube Roselândia.

“Uma ocasião eu estava chegando na esquina da Bento Gonçalves, havia um grupo de pessoas, entre eles o Meirelles Duarte (in memorian), que apontou para mim e disse ‘esse é o cara mais injustiçado de Passo Fundo”.

Esperança

Questionado sobre o que lhe pertence atualmente na Roselândia, Laimer é categórico: “Não tenho nada, não tenho um metro de terra”.

Embora tenha tido muitas decepções com o decorrer do tempo pela falta de condições de dar andamento em muitos projetos da Roselândia, ainda há um fio de esperança no coração do empresário. “Se os vereadores, o poder público encarasse, ainda tem tempo para fazer”, declara.

Contudo, atualmente muitas áreas da Roselândia são de propriedade privada, o que limita uma possível interferência pública.

“À medida que as construções vão acontecendo, os edifícios vão subindo, o ser humano vai vivendo em quatro paredes, e o ser humano não foi feito para viver engaiolado, ele faz parte da natureza. Ele tem que ter espaço, muito verde, muita água, esportes de todas as modalidades, cultura, museu, teatro, é uma necessidade para o ser humano. Esse era o meu desejo ao construir o complexo da Roselândia”, conclui Laimer.

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Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!

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Ana Caroline Tavares Haubert

Ana Caroline Tavares Haubert

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!