Adriano da Silva: O serial killer de maior condenação no Rio Grande do Sul por ter matado e estuprado crianças em Passo Fundo e região

Doze crianças mortas, nove condenações e uma pena de 264 anos e cinco meses. Esse, é o histórico sanguinário do serial killer que cruzou o caminho de Passo Fundo e região em 2002.

Crimes no Rio Grande do Sul

Na maior covardia, Adriano da Silva, atualmente com 43 anos, atraiu crianças de origem humilde — um indígena, um vendedor de rapadura, um engraxate — ou que teriam uma condição um pouco melhor, mas que estavam vendendo rifas ou picolés próximos as suas casas e as levou para um caminho sem volta: a morte.

Adriano da Silva

Na promessa de ajudá-los, Adriano usava a desculpa de que iria buscar dinheiro para comprar os itens que os garotos estavam vendendo ou de conseguir emprego para eles. Dessa maneira, ele os convencia a acompanhá-los até lugares afastados e em seguida usava golpes de Muay Thai, cuja arte marcial ele praticava desde a adolescência, para deixar as vítimas inconscientes. Depois, ele usava um cordão ou as próprias mãos para estrangular os meninos até a morte e abusava sexualmente deles.

“Eu apenas senti remorso pelo primeiro guri que eu matei, já matei 12, eu não ficava satisfeito com a morte, tinha que fazer mais. Cheguei a pensar em cortar os pedaços”, disse Adriano em julgamento.

Cobertura jornalística

Acácio Silva, que na época atuava como repórter policial da rádio Uirapuru e correspondente do Correio do Povo, diz que o caso foi “uma das coberturas mais chocantes” que já fez.

“Primeiro, porque as vítimas eram crianças, mortas em série e com requintes de crueldade, inclusive com abusos sexuais. Além disso, eu conhecia alguns dos meninos que eram de famílias humildes e faziam biscates nas ruas para ajudar as famílias. O engraxate Alessandro Silveira, 13 anos, era um deles.

“Era difícil o dia que ele não aparecia na rádio. As gurias — colegas da rádio — gostavam muito dele e sempre estavam ajudando com alguma coisa. O Jeferson Borges Silveira, 11 anos, era outro que andava sempre lá pela rádio. Então foi muito triste e chocante ter que noticiar as mortes deles. E antes ainda quando estavam desaparecidos foi muito difícil acompanhar a angústia das famílias nas buscas pelos seus filhos”, descreveu Acácio com exclusividade para o Memórias em Pauta.

Adriano foi condenado a 264 anos e cinco meses de prisão por ter matado e estuprado nove crianças.

Na época em que vários corpos já haviam sido descobertos, mas a polícia ainda não tinha o Adriano como suspeito, ele teve a audácia de ir até à Rádio Uirapuru, uma das mais populares de Passo Fundo, para pedir uma passagem de ônibus para ir embora para o seu estado de origem, o Paraná.

“Alguns dias antes de fugir da cidade, o Adriano da Silva esteve na rádio pedindo uma passagem. Além da reportagem policial, eu apresentava o programa A Hora da Recado das 12:30h às 14h e num determinado momento saia do estúdio e ia para a frente da emissora conversar ao vivo com as pessoas que estavam lá para fazer apelos — pedidos de emprego, alimentos, remédios, cadeiras de roda e, inclusive passagens para outras cidades. Num destes dias, o Adriano estava lá e quando fui conversar com ele, afirmou que precisava de uma passagem para voltar para o seu estado, o Paraná. Alegou que tinha vindo para Passo Fundo em busca de emprego e como não conseguiu queria voltar para sua terra natal. Naturalmente, eu não sabia quem era ele, aliás nem a polícia sabia. Ao falar na rádio, ele usou o nome de um irmão (Gabriel). Depois da prisão é que fui reconhecê-lo como o cara que havia pedido a passagem. Por sorte ninguém ajudou com a passagem, pois caso contrário, poderia ter voltado para o Paraná e ai ficaria mais difícil a polícia prendê-lo”, contou Acácio.

Falha policial

Adriano da Silva já havia sido condenado por latrocínio — roubo seguido de morte — formação de quadrilha e ocultação de cadáver, no Paraná. Teria 21 anos de detenção para cumprir, mas fugiu depois de seis meses.

A polícia do Paraná não inseriu no INFOSEG, cujo sistema nacional reúne informações policiais, a informação de que Adriano da Silva já havia sido preso, tampouco que estava foragido. Dessa maneira, a polícia gaúcha não teve acesso aos crimes que o acusado já havia praticado e sido condenado.

Além disso, Adriano portava um documento do seu irmão, Gabriel, que possuía ficha limpa. O serial killer chegou a ser detido três vezes pela polícia gaúcha — uma por furto, outra por estar com uma faca e a terceira quando Gideon Dornelles, policial militar aposentado e avô de um dos meninos mortos, suspeitou dele — mas foi solto, já que não constava nenhuma informação do ‘Gabriel’ no sistema policial. Nesse meio tempo, pessoas inocentes foram presas.

“Gideon Dornelles desconfiou que Adriano era o assassino de seu neto, Leonardo Dornelles, oito anos. O menino foi visto pela última vez ao lado de seu algoz na saída de um fliperama no bairro Santa Marta em Passo Fundo (RS) no dia 31 de outubro. Com faca em punho, Gideon abordou Adriano e o levou à delegacia da cidade, onde ficou detido por algumas horas. Só foi liberado porque seus dados não constavam do Cadastro Nacional de Criminosos, o Infoseg. Isso porque a polícia do Paraná retirou as informações do sistema alegando que usavam um programa próprio e o nacional não era confiável”, foi publicado em 2004 pela ISTOÉ.

Há a informação, ainda, de que policiais de Passo Fundo haviam descredibilizado a informação de Gideon Dornelles, chegando a dizer que ele tomava ‘Gardenal’ e estaria fora de si. Adriano fugiu de Passo Fundo após o episódio e voltou a matar em uma cidade vizinha.

Prisão e condenação

Com a colaboração da mídia o acusado foi identificado através de um retratado falado. A jornalista Roberta Salinet, que na época trabalhava na RBS de Passo Fundo, carregava com ela um retratado falado do Adriano que ela teve acesso na Delegacia Regional de Passo Fundo e o levava em todas as coberturas dos casos.

Na última morte, ocorrida no município de Sananduva em 2004, um amiguinho da vítima de Adriano que havia visto os dois juntos reconheceu o assassino através do retrato que a jornalista tinha. Graças a isso, a polícia foi atrás dele e conseguiu prendê-lo. Adriano foi condenado a 264 anos e cinco meses de prisão. Atualmente ele está detido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

Roberta Salinet foi homenageada pelo município de Sananduva pela colaboração com a prisão de Adriano. | Foto: Arquivo Pessoal

Liberdade

A lei brasileira permite que um acusado fique preso pelo tempo máximo de 40 anos. Contudo, o caso do Adriano, que já cumpriu cerca de 18 anos de pena, pode ser uma exceção.

“Adriano da Silva é um serial killer e não tem recuperação. A medida indicada para seu transtorno social é a reclusão em uma penitenciária de segurança máxima pelo maior tempo possível. Ainda assim, mesmo recolhido, representará perigo aos outros reclusos e a equipe de segurança da cadeia”. Este é o prognóstico do laudo do Instituto Psiquiátrico Forense que foi apresentado pelo promotor de Justiça Fabiano Dallazen em um dos julgamentos.

Jabs Paim Bandeira, que exerce direito há 52 anos, e que atuou como assistente de acusação no julgamento de três vítimas sem cobrar nada das famílias, também reforça a tese de que são mínimas as chances de o indivíduo ser solto.

“Foi o maior crime em série do Rio Grande do Sul e ele é o autor desses crimes. O próprio laudo psiquiátrico dele diz que se ele fosse solto ele continuaria matando. No caso dele, quem é que vai soltá-lo? E para haver essa redução de pena tu tens que passar por um laudo psiquiátrico”, explicou Jabs ao Memórias em Pauta.

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!