Construindo memórias

Ana Caroline Tavares Haubert
4 min readJun 23, 2022

Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor do curso de graduação e pós em História da Universidade de Passo Fundo, Alessandro Batistella pesquisa e orienta temas relacionados à História Política e relações de poder.

Alessandro Batistella.

Em sua atuação, o pesquisador tem ligação direta com o Laboratório de Memória Oral e Imagem (LAMOI), que é um laboratório vinculado ao curso de graduação em História e ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo. O principal objetivo do laboratório é o de desenvolver pesquisas a partir da memória oral, visual, audiovisual e escrita da região norte do Rio Grande do Sul. Com foco central sobre o patrimônio histórico-cultural da região, a partir da sua diversidade étnica, social, cultural, religiosa, entre outras.

Autor do livro ‘História, Memória e Representações — Uma análise dos monumentos em Passo Fundo’, Batistella explica como a memória oral foi trabalhada e aplicada no projeto.

O foco principal desta pesquisa foi analisar as memórias em disputas e as representações que estão vinculadas a cada um dos monumentos edificados na cidade. As principais fontes de pesquisa foram através de documentos (físicos e digitais) da Câmara de Vereadores de Passo Fundo, com fotografias dos monumentos e de arquivos dos jornais locais (O Nacional e Diário da Manhã)”, conta.

Gervásio Lucas Annes, localizado na praça Tamandaré e inaugurado em 1920. | Foto: Alessandro Batistella

O pesquisador falou ainda sobre a relevância de pesquisas que resultam em materiais, como o livro aqui citado, para a história da sociedade (passo-fundense) em geral.

As pesquisas que visam a analisar a história local são fundamentais para que a sociedade possa conhecer um pouco mais sobre a sua própria história e, assim, refletir sobre questões como identidade, memórias em disputa, relações de poder, entre outros, contribuindo, assim, para a valorização e o respeito às diversidades étnicas, culturais, religiosas, etc”, explica.

O que significa memória e imagem?

Batistella relata que, na prática, a memória significa a representação da faculdade humana de conservar traços de experiências passadas. Mas que, contudo, a memória existe fora de nós, seja através de objetos, imagens, paisagens, monumentos, arquivos, comemorações (datas cívicas), etc.

“Num sentido comum, toda memória se funda em identidades de grupo: nossas lembranças vinculam-se a experiências numa vida em grupo — família, vizinhos, fábrica, escola, etc. Todo o social está inscrito na memória individual. A memória é entendida assim enquanto construção social. Se por um lado, a memória tem uma função de reforçar o sentimento de pertencimento dentro de uma comunidade, por outro tem também a função de marcar as fronteiras sociais, definindo diferenças, mesmo dentro de uma mesma sociedade. Por sua vez, toda imagem é um signo/significante, que terá os seus significados/significações”.

Trata-se do primeiro monumento edificado em Passo Fundo, em homenagem ao principal líder político do município no período. | Foto: Alessandro Batistella

O pesquisar expressa de que maneira o programa influencia a construção das pesquisas, temas e pautas que são lá são realizadas.

O LAMOI contribui principalmente, por meio de entrevistas (utilizando a História Oral), nas pesquisas que têm como principal foco o tema da memória, que se liga do conceito de identidade, pois as memórias produzidas historicamente pelos diferentes grupos (sociais, étnicos, culturais, etc.) construíram representações de identidade que podem ser acessadas a partir de fontes diversas e passam a ser entendidas como registros das experiências humanas ao longo do tempo e que, na ação de rememorar, unem passado e presente, num processo de manutenção e reforço dos laços identitários dos grupos”.

Batistella explica que, nesse sentido, o conjunto de depoimentos e seus significados são entendidos na medida em que se referem à mesma realidade, ou seja, uma realidade comungada por todo o grupo social, adquirindo dessa forma um significado coletivo. Enquanto a articulação entre as narrativas individuais dá a possibilidade de vislumbrar a perspectiva histórica do grupo, ou seja, um mesmo olhar do presente sobre o passado, revelando reflexões sobre si e a história do grupo, enfatizando o caráter reflexivo dos processos de memória, que nos remete à ideia de identidade.

“As histórias de vida, assim, acabam por criar uma identidade entre as pessoas, na medida em que as mesmas partilham diferentes estratégias e saberes diante de uma mesma realidade”, conclui.

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Ana Caroline Tavares Haubert

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!