Irmãos Campos: A quadrilha de maior periculosidade que Passo Fundo já viu

Cartaz à procura dos irmãos Campos | Reprodução

Com metralhadora e fuzis em mãos, era assim que Jair Roberto Ribeiro de Campos (Zoiudo), Rui Renato Ribeiro de Campos (Rambo), Moacir Ribeiro de Campos (Rico) e Luiz Carlos Ribeiro de Campos (Cartucho) apavoravam a cidade de Passo Fundo de 1992 até maio de 1994, quando a quadrilha, considerada a mais sanguinária de Passo Fundo, foi liquidada pela polícia gaúcha.

Mais conhecidos como os ‘Irmãos Campos’, naturais do Paraná, de uma família de oito irmãos, a quadrilha deixava um rastro de terror por onde passava e era procurada pela polícia em, pelo menos, sete estados brasileiros, entre eles Rondônia, Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná. Um dos delegados responsáveis pelo caso em Passo Fundo, Luiz Galbari da Silva detalhou informações sobre o caso ao Memórias em Pauta.

“Cada um deles havia matado muita gente pelo Brasil todo. Na época, soube por um juiz de Ji-Paraná, Rondônia, que eles possuíam mais de 40 mortes cada um, muitos no garimpo daquela região de Rondônia. É possível que tenham sido a quadrilha mais sanguinária de Passo Fundo sim”, contou o delegado, atualmente aposentado.

Os crimes variam entre assassinato, roubo à mão armada, latrocínio, tráfico de drogas, e segundo os jornais da época, estupros. Sendo o último crime negado pela quadrilha em carta enviada à Polícia Civil de Passo Fundo.

Quero que desmintam essa história que somos estupradores. Todos nós temos famílias, mulher e filhos. Somos homens direitos. Nós podemos fazer de tudo, mas isso jamais. Até hoje todo estuprador que apareceu na minha frente ficou mortinho no mesmo local”.

CRIMES

Acervo pessoal | Foto: Ana Caroline Haubert

Eles eram conhecidos especialmente pela perversidade e frieza com que cometiam os crimes. Em um dos casos, após assaltarem um banco em Curitiba, Paraná, eles abordaram uma jovem que estava entrando em seu veículo, com o objetivo de roubá-lo e empreender fuga, mas reagiram assim que a moça ergueu os vidros e a balearam na cabeça.

Já em Passo Fundo, o primeiro crime teria sido por encomenda. O primeiro sangue derramado na cidade pelas mãos dos Campos foi do proprietário de um drive localizado na Avenida Brasil, onde hoje é a garagem da empresa de transporte urbano Coleurb.

A partir disso, Rambo e Rico chamaram outros dois irmãos, o Zoiudo e o Cartucho, para se estabelecerem em Passo Fundo. Foram alvos dos roubos dos irmãos postos de combustíveis, agências bancárias, restaurantes, joalherias, mercados, agências de turismo e basicamente qualquer estabelecimento que tivesse dinheiro em Passo Fundo.

DEPOIMENTO DO REPÓRTER POLICIAL QUE COBRIU O CASO

O repórter policial, atuante 26 anos na editoria criminal pela Rádio Uirapuru, Acácio Silva, relembra com vivacidade do caso, pois cobriu toda a saga dos irmãos Campos em Passo Fundo desde o primeiro crime — assassinato — até o extermínio da quadrilha.

Tantos crimes, além de causar pânico na população, eram destaques quase que diários nas manchetes dos jornais e rádios de Passo Fundo, grande parte acompanhados e narrados por Acácio Silva.

“Ficamos sabendo que eles não perdiam os horários dos meus boletins e dos noticiários da rádio, inclusive gravavam tudo em fita cassete para mandar para os parentes no Paraná para que ficassem sabendo das façanhas deles em Passo Fundo”, contou com exclusividade ao Memórias em Pauta.

Acácio e os colegas de rádio ficavam sabendo das intenções dos irmãos através de um líder comunitário do bairro José Alexandre Zachia, hoje já falecido, que por medo dava cobertura para os irmãos.

“Ele (o líder comunitário) nos procurou na rádio — eu e o Júlio Rosa, chefe da redação, já falecido — alertando que era para termos cuidado com o que falávamos dos irmãos, pois eram muito perigosos. Nos disse textualmente: ‘para eles invadir a rádio e executar vocês, é como se estivessem matando galinhas’”.

Apesar das ameaças, eram ouvintes assíduos da Rádio Uirapuru. “Teve um episódio em que foram assaltar um supermercado na vila Vera Cruz, onde um dia antes, o Cartucho afirmou, segundo um líder, que iria assaltar o mercado pilchado de gaúcho e surrar o vigia de relho para ver a manchete do Acácio: ‘Gaúcho assalta mercado e surra vigia’. Não surrou porque o vigia não reagiu, mas a minha manchete foi parecida com a que ele havia imaginado, coloquei: ‘Gaúcho pilchado assalta mercado na Vera Cruz’. Essa foi um das notícias que ele mandou para os parentes”, relembrou Acácio.

DEPOIMENTO DO INVESTIGADOR DO CASO

Luiz Miguel Scheis trabalhou por 34 anos na Polícia Civil e, na época da atuação da quadrilha em Passo Fundo, ocupava o cargo de investigador, tendo vínculo direto com o caso. Em entrevista ao Memórias em Pauta, Scheis conta detalhes da investigação que levou ao desfecho fatal dos irmãos Campos.

Scheis relembra a personalidade e atuação de cada um dos criminosos. “O Rico era o fera, chefe da quadrilha, a cabeça pensante, inteligentíssimo. O Zoiudo eu ajudei a matar e o Cartucho era o mais velho, era o cozinheiro deles, não era o mais perigoso. Já o Rambo, foi apelidado assim por nós (policiais) porque quando ele foi preso aqui em Passo Fundo ele foi encontrado com um monte de faca, armas, munição e estava super tranquilo”, disse.

O PRIMEIRO CONFRONTO QUADRILHA X POLÍCIA

Após alguns meses de investigação, a polícia já ligava os Campos aos muitos crimes ocorridos na cidade. Um passo-fundense que, junto dos seus três irmãos, era comparsa da quadrilha, temia as consequências com o envolvimento criminoso e decidiu delatar à polícia informações do paradeiro deles. Na época os irmãos Campos estavam estabelecidos na chácara da leitaria, que pertencia ao comparsa gaúcho e os seus irmãos.

O delator entregou aos polícias informações sobre os próximos planos da quadrilha. O próximo crime tinha como alvo o restaurante Grill Hall Panorâmico, (localizado em frente à Polícia Rodoviária Federal) e aconteceria em um domingo por volta das 22 horas. O horário foi escolhido com base na parada dos ônibus vindos de São Paulo e da Fronteira, momento em que o restaurante estaria cheio.

Luiz Miguel Scheis relembra a noite do primeiro confronto entre a polícia e os criminosos. “Eles estavam no esconderijo (na leitaria) e iam sair por volta desse horário para ir assaltar o restaurante e voltar. O delator combinou que avisaria a polícia quando a quadrilha saísse para que os policiais militares se posicionassem na leitaria e no retorno acontecesse o confronto”.

Após o tiroteio, por volta das 23h30, a Polícia Civil compareceu ao local e descobriu que apenas o mais velho dos irmãos morreu, o Cartucho. Os demais foram baleados, mas conseguiram fugir.

Na imagem, o corpo do primeiro irmão que foi morto pela polícia, o Cartucho. Acervo pessoal | Foto: Ana Caroline Haubert

CARTAS DE AMEAÇAS

Era de praxe os irmãos enviarem cartas de ameaças para as autoridades, inclusive detalhando o endereço de cada uma das pessoas envolvidas com as investigações, como os juízes, promotores, delegados e investigadores.

“Nós corríamos risco de vida e só descobrimos a gravidade depois que eles morreram, conversando com as viúvas. A viúva do Rambo chegou e disse assim: “uma noite nós seguimos o senhor (que estava acompanhado de um colega e uma namorada na época) até a Casa do Chopp (um bar localizado onde hoje é a farmácia Drogaria Raia, na esquina da Avenida Brasil com a rua Fagundes dos Reis) e o senhor estacionou e o fulano falou ‘vamos pegar ele agora’. Eu nem imaginava, fiquei sabendo isso depois da morte deles. Eles colocavam uma foto minha em uma árvore e faziam de alvo”, revelou Scheis.

Confira o que dizia a carta:

“Ainda tenho também informações onde seus filhos e suas esposas trabalham e estudam. Isso vale para quase todas as autoridades locais. Vocês não são páreos para nós. E tenho certeza que todos vocês não querem um derramamento de sangue, não querem também perder seus filhos que criaram com tanto carinho.

Vocês sabem que eu tenho coragem e audácia para fazer o que quiser aí nessa cidade. Por isso quero que retirem todos esses cartazes aí da cidade. Quero também que desmintam essa história que somos estupradores. Todos nós temos famílias, mulher e filhos. Somos homens direitos. Nós podemos fazer de tudo, mas isso jamais. Até hoje todo estuprador que apareceu na minha frente ficou mortinho no mesmo local.

Nós somos bandidos ‘Classe A’, só tiramos dinheiro de pessoas que muito tem. E que tudo aquilo que tem, foi tirado dos pobres trabalhadores. Hoje em dia no país nossas cidades estão uma vergonha, todo mundo rouba de todo mundo, todo mundo ‘cagoeteia’ todo mundo. Dá para perceber isso olhando para a política do nosso país. Quando fazemos um (assalto) banco, todo mundo quer caguetar, ‘passou ali, passou aqui’, mesmo sabendo que o que pegamos não é deles”.

Uma das cartas de ameaças enviadas às autoridades por um dos quadrilheiros. Acervo pessoal | Foto: Ana Caroline Haubert

CONFRONTO FINAL

Imagens dos irmãos Rambo e Zoiudo mortos em confronto policial. Reprodução | Acervo pessoal

Nessa época eles estavam vivendo em uma casa na rua Manoel Portela, nos fundos da Prefeitura Municipal, onde ocorreu o confronto fatal. Eles tinham uma ligação muito forte de sangue, como recordam as autoridades, e fizeram contato com uma auxiliar de necropsia perguntando quanto ela queria para liberar clandestinamente o corpo do primeiro irmão morto, o Cartucho.

Os Campos queriam levá-lo para Curitiba para realizar os atos fúnebres. Essa informação foi repassada para a polícia, que armou um cerco na região e se preparou para abordar os irmãos durante o encontro que seria realizado para negociar a entrega com a funcionária.

O investigador Scheis relembra o episódio. “Era um dia da semana, por volta das 11h30 da manhã, saída das crianças da escola (localizada poucos metros do local de confronto), e eu estava aqui na Prefeitura, disfarçado de pintor”.

Quem compareceu no local foi o Zoiudo, que não demorou para perceber a presença da polícia e acabou dando início ao confronto.

“Ele percebeu que haviam policiais, sacou a arma, nós reagimos, e ele caiu no rio. No mesmo momento a brigada cercou a casa que o Rambo estava e ele foi morto”, contou. “O rambo levou um tiro de fuzil que arrancou metade do seu rosto”.

Na foto, o delegado Luiz Galbari da Silva e o investigador Luiz Miguel Scheis. Acervo pessoal | Foto: Ana Caroline Haubert

DESCOBERTA CHOCANTE

Após o confronto, Rico, o único sobrevivente dos quatro irmãos, fugiu e se escondeu na casa de um empresário, que possui estabelecimento comercial no centro da cidade ainda hoje, cujo nome não será citado nessa reportagem.

“Para nós foi a maior surpresa desagradável. Nessa noite o Rico posou lá. Até hoje ninguém sabe o vínculo entre eles, o que aconteceu que ficaram amigos. Este cara chamou o advogado da quadrilha, Valdir Lourenço (já falecido), que buscou ele e o levou até Curitiba. Ele deixou o Rico lá e voltou para Passo Fundo. Quando chegou, nós fomos até ele para conseguir informações sobre o paradeiro do Rico. Enquanto isso, os irmãos estavam rodeando a cidade baleados. Ele (o advogado) chegou para nós e disse ‘não me peçam isso, eu estou na maior fria do mundo, eu entrei de advogado e agora não posso sair se não eles vão me matar’”, relatou Scheis.

Em outras cartas, Rico chamou as autoridades de covardes, jurou que voltaria e que vingaria a morte de cada um dos irmãos.

“Eu escapei e irei um dia voltar e acabarei com todos aqueles que nos traíram, eu vou vingar meus irmãos”, afirmou Rico em carta enviada às autoridades. Acervo pessoal | Foto: Ana Caroline Haubert

MORTE DO ÚLTIMO IRMÃO

“Nós não dormíamos mais atrás dele. Fizemos contato com os colegas da delegacia de Curitiba e passamos o endereço que ele estava, graças a colaboração do advogado dele, Valdir Lourenço. Os colegas monitoram o Rico, foram até o local, ele reagiu, deram uma rajada de metralhadora e mataram na hora”, concluiu o investigador.

ALÍVIO PASSO-FUNDENSE

Como os entrevistados pelo Memórias em pauta descreveram o desfecho fatal da quadrilha de alta periculosidade:

“A Polícia sempre planeja capturar bandidos. Não matá-los. Ficamos orgulhosos por ter feito aqui em Passo Fundo o que a policia do Brasil inteiro tentava havia anos e não conseguia”, delegado Luiz Galbari da Silva.

“Eu estava chegando na prefeitura e avistei a auxiliar de necropsia falando com um homem. Depois fiquei sabendo que era um deles. Uns 10 minutos depois deste encontro estourou um tiroteio. Antes da morte dele (Rico), havia grande medo na comunidade passo-fundense, pois se temia que voltasse com outros parentes para vingar a morte dos irmãos, inclusive havia uma lista de autoridades marcadas para morrer. A morte dos irmãos foi um grande alívio para Passo Fundo”, repórter policial Acácio Silva.

“Foi aí que aconteceu o término dos quatro”, investigador Luiz Miguel Scheis.

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!

Gaúcha e acadêmica de jornalismo. O resto é intenso demais para reduzir em descrições!